domingo, 11 de abril de 2010

[entre]aberto [entre]cortado


Então era isso?

Que você guardava em segredo naquele único quarto escuro onde nunca me deixava entrar? E que um dia, na fresta que por descuido você deixou aberta eu pude enxergar. Te.

Não importa o quão rápido você tenha tentado fechar a porta. Não importa quantas histórias você invente pra confundir o que eu vi. Nem importa tão pouco que se faça ainda de menino, capaz de acreditar naquilo que você mesmo criou. Porque agora eu sei a diferença, entre você, e o seu reflexo.

Foi quando essa semana eu de novo caí. Com o corpo dessa vez. E foi bom. Porque agora meus joelhos esfolados combinam com o sorriso que você me deu. E, vendo-os ali, uma carne viva emoldurada de poeira, mais um sangue teimoso que insistia em correr a beijar o chão, eu pude compreender, pela primeira vez, quão sério era o estrago de uma queda dentro, no coração. E foi bom. Porque quando surgir uma casquinha e ela começar a construir uma ponte de perdão sobre a ferida aberta, isso vai me fazer entender, que se meu corpo que é só carne, tem sozinho o poder de consertar a si próprio, então minha alma deve ter mais ainda a capacidade de curar um coração ferido. Auto limpar, auto curar. De criar também uma ponte de perdão sobre a ferida em chamas. Mesmo que a carne inflame. Mesmo que o coração doa. Mesmo que reste ao final, a cicatriz. Porque cicatrizes são as crônicas de batalhas da vida que se entalham em nossa pele. Então eu as carregarei como medalhas sobre mim. Medalhas de mais uma batalha em que fui machucada e derrotada, sim...mas sobrevivi. E vivi. Pude viver. E quando a casquinha cair, haverá se formado uma nova pele em mim, mais forte. E quando a casquinha cair, haverá se formado um novo coração em mim, mais forte. Por isso, mesmo que você me prefira no chão, eu tenho que ficar de pé e preencher novamente minha altura. Mesmo que os joelhos doam. Mesmo que o coração reclame. Mesmo que a alma inflame.

Em silêncio, tentando reaprender a andar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Carambolas


Querem me ensinar a preferir outras frutas. As mais doces, mais vermelhas, mais vendidas, as preferidas do resto do mundo...Era só o que faltava! Eu não sou resto de mundo! Eu sou mundo inteiro. E o mundo inteiro sou eu. Simples assim. Um cabe no outro e o outro cabe no um. Todos os dias conto horas e horas de gente querendo me mudar. Mudar e emudecer! Porque o grito dos incomodados aflige quem reina nessa bagunça aqui! Mas...ora bolas! Eu gosto de carambolas! Gosto que cresçam no meu quintal, da terra que toca meus pés, ao invés de virem sabe-se-lá-de-onde em caixotes cheios de química pra fingir o sabor vencido. Gosto dessa constelação brotando e, entre o verde das folhas, amarelecendo. Do azedo docinho que puxa a bochecha pra dentro. Gosto do formato de estrela, da quebra da obviedade. Eu gosto mesmo é de revolução. Dessas que a natureza faz que quebram a cabeça da gente com cores desavergonhadas e formatos improváveis. Dessas que mudam o que existe, que tornam preto o que era branco e salgam o que era insoso sabe-se lá desde quando. Pois é essa revolução, é somente a revolução, que faz brotar em meio ao chão, toda uma constelação. E me dá de beber, as estrelas da terra, e também as do céu.

Bile

Você me faz

Sair da rota

Pra vomitar

versos assim

de qualquer jeito

na cara de quem passa

Sujo minha roupa, chão e mãos

Sujo fígado, âmago e coração

Sujo a razão.

Sempre sujo a razão.

Mancha.

Nódoa que não sai.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Suspenso

E quando o peso das palavras é maior que a gente?
E quando os passos congelam equilibrando-se na linha bamba do tempo e o ar, é de repente tão sujo e denso, que arrebenta minhas veias por dentro?

É quando se para no primeiro tempo da intenção de um abraço, e meus braços, de suportar tuas palavras, já tão fracos, não te alcançarão jamais.

Sobre o luto

O luto, amor?
Por lágrimas já choradas,
por palavras já ditas,
por pedaços que nunca
estiveram inteiros?
O luto, amor?
O luto não.
Nascer.

Brincadeira


E eu não saberia dizer
se somos amigos que
passaram um tempo
brincando de namorados
ou se somos namorados
que passaram tempo demais
brincando que eram amigos.

1:42

Não ligue pro que eu falo.É sério.Já passa de uma da manhã e as palavras me escapam da boca sem que possa contê-las.Correm de mim como crianças mal criadas, derrubam coisas por onde passam, tropeçam em lembranças, explicações...melhor pararem ou vão acabar quebrando algo.São palavras temperadas.Com o gosto amargo do beijo que te neguei.Gosto que nunca saiu da minha boca. Já tentei de tudo, o tudo já me tentou e eu não cedo.Não tem jeito, aqui estou.Eu sempre volto.