quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Philos


Abro os olhos,



Sinto-te adormecida, tão longe de mim!



Tudo quanto sonho é te encontrar.



Volto a buscar-te,



Mais uma vez.



Uma entre tantos,



Que desta terra, peregrinos como eu,



Seguem de colher e partilhar migalhas



Que no caminho deixaste para guiar-nos.



Sim, minha senhora, como devotados mendigos,



Escravos de ti que, no entanto, são senhores de si.







Ó amada dama,



Mesmo sem por estes caminhos sermos ainda



Capazes de te enxergar,



Por tão simplesmente te amar,



Aprendendo a de nosso tudo doar, sem nada carregar



Nada pelo caminho macular, nada pedir,



Nada almejar, nada, além da procura,



Nossa vida ganha cor e vida em tua busca!







Perdoa senhora, se por tantas vezes,



Abandono a trilha da Lei



Distraindo-me por entre os véus,



Oh, sim, enamorando-me de Maya,



Maya e suas danças,



Maya e os seus sete véus,



Envolve-me em deleites,



Acaricia-me os sentidos,



Alimenta-me as vaidades da mente,



Até que ceda, ignorante, cativa e passiva,



Às profundezas de seu dormir e sonhar.







Mas meu amor por ti sempre, senhora,



Em meio ao torpor, mais alto se eleva,



Abafa as canções envolventes



Com as quais Maya me seduz.



Sim, mesmo em meio ao prazer e à dor



Tua é a Voz que canta mais alto.



E a Vontade, mais uma vez, se faz soberana,



Incandescente espada ancestral,



Prossegue,



Imbatível e eterna,



A desfazer todos os véus,



A desatar todos os nós



Com os quais me tenho atado à Maya.



Com o fogo purificador do âmago divino,



Liberta-me das correntes



Em que presa julgava estar



Pois lembro-me de tua face desconhecida e



Amo-te cada vez mais, na falta que me fazes...







Que essa tua imagem queime em minha alma,



Senhora, como chama reminiscente



Guiando-me no retorno para casa,



Assim, diante dos sagrados ofícios a mim destinados,



Quando a carne vil, tremer, que o espírito, fiel, possa vencer!



Tendo há muito rompido a crisálida de carne e pele,



Tendo há muito me despido de todos os véus,



Almejo, ó dama, chegar a ti apenas com aquilo que Sou.







Ainda que pareças de mim intangível,



Pois sei que para merecê-la, enorme é a distância a percorrer



Entre aquilo que estou e o que devo Ser,



Ainda que te divise de mim tão distante,



O Ser, o buscador incansável,



Tua presença ardentemente reclama,



Não me deixa dormir, não me deixa sonhar.







Então, sonolenta, em meio à densa noite, à espessa neblina,



Desperto pra te buscar, busco-te pra te despertar.



Abro os olhos



E sei-te adormecida



Tão dentro de mim!



Tudo quanto quero, é te despertar!



Oh! Desperta Sophia, desperta!


Odisséia



Eu, que sou filha da água, hoje caminho sobre a terra,
Dia desses ganho os ares, tenho certeza disso.
Por enquanto prossigo,
Corro mais que caminho, forço meus músculos,
Entalho com o vento a minha pele, pra tatuar em mim tudo o que vejo,
Pra não esquecer nunca o que almejo...o que almejo...
Sou pura química, ação e reação, a digestão, a geração.
Mas é a eletricidade que me move, me leva a buscar, sorver emoções,
Descobrir novas sinapses, conexões,
Pontes que sempre estiveram ali e eu nunca vi.
Aprendendo que só tem respostas quem pergunta,
Dentro de abismos eu pulo sempre.
Não posso me desviar de seus encantos e mistérios.
E nessas quedas me ardo, me queimo,
Ser filha dessa chama é o que almejo.
Desafiando a física,
Meu objetivo é vencer a lógica,
Meu objetivo é que ela vença comigo.
E quando o abstrato me fere,
Crio canção, crio cura,
Prossigo,
E nada levo comigo.
Eu, filha da água, hoje caminho sobre a terra,
Através dessa chama vou ganhar os ares, tenho certeza disso.

domingo, 11 de abril de 2010

[entre]aberto [entre]cortado


Então era isso?

Que você guardava em segredo naquele único quarto escuro onde nunca me deixava entrar? E que um dia, na fresta que por descuido você deixou aberta eu pude enxergar. Te.

Não importa o quão rápido você tenha tentado fechar a porta. Não importa quantas histórias você invente pra confundir o que eu vi. Nem importa tão pouco que se faça ainda de menino, capaz de acreditar naquilo que você mesmo criou. Porque agora eu sei a diferença, entre você, e o seu reflexo.

Foi quando essa semana eu de novo caí. Com o corpo dessa vez. E foi bom. Porque agora meus joelhos esfolados combinam com o sorriso que você me deu. E, vendo-os ali, uma carne viva emoldurada de poeira, mais um sangue teimoso que insistia em correr a beijar o chão, eu pude compreender, pela primeira vez, quão sério era o estrago de uma queda dentro, no coração. E foi bom. Porque quando surgir uma casquinha e ela começar a construir uma ponte de perdão sobre a ferida aberta, isso vai me fazer entender, que se meu corpo que é só carne, tem sozinho o poder de consertar a si próprio, então minha alma deve ter mais ainda a capacidade de curar um coração ferido. Auto limpar, auto curar. De criar também uma ponte de perdão sobre a ferida em chamas. Mesmo que a carne inflame. Mesmo que o coração doa. Mesmo que reste ao final, a cicatriz. Porque cicatrizes são as crônicas de batalhas da vida que se entalham em nossa pele. Então eu as carregarei como medalhas sobre mim. Medalhas de mais uma batalha em que fui machucada e derrotada, sim...mas sobrevivi. E vivi. Pude viver. E quando a casquinha cair, haverá se formado uma nova pele em mim, mais forte. E quando a casquinha cair, haverá se formado um novo coração em mim, mais forte. Por isso, mesmo que você me prefira no chão, eu tenho que ficar de pé e preencher novamente minha altura. Mesmo que os joelhos doam. Mesmo que o coração reclame. Mesmo que a alma inflame.

Em silêncio, tentando reaprender a andar.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Carambolas


Querem me ensinar a preferir outras frutas. As mais doces, mais vermelhas, mais vendidas, as preferidas do resto do mundo...Era só o que faltava! Eu não sou resto de mundo! Eu sou mundo inteiro. E o mundo inteiro sou eu. Simples assim. Um cabe no outro e o outro cabe no um. Todos os dias conto horas e horas de gente querendo me mudar. Mudar e emudecer! Porque o grito dos incomodados aflige quem reina nessa bagunça aqui! Mas...ora bolas! Eu gosto de carambolas! Gosto que cresçam no meu quintal, da terra que toca meus pés, ao invés de virem sabe-se-lá-de-onde em caixotes cheios de química pra fingir o sabor vencido. Gosto dessa constelação brotando e, entre o verde das folhas, amarelecendo. Do azedo docinho que puxa a bochecha pra dentro. Gosto do formato de estrela, da quebra da obviedade. Eu gosto mesmo é de revolução. Dessas que a natureza faz que quebram a cabeça da gente com cores desavergonhadas e formatos improváveis. Dessas que mudam o que existe, que tornam preto o que era branco e salgam o que era insoso sabe-se lá desde quando. Pois é essa revolução, é somente a revolução, que faz brotar em meio ao chão, toda uma constelação. E me dá de beber, as estrelas da terra, e também as do céu.

Bile

Você me faz

Sair da rota

Pra vomitar

versos assim

de qualquer jeito

na cara de quem passa

Sujo minha roupa, chão e mãos

Sujo fígado, âmago e coração

Sujo a razão.

Sempre sujo a razão.

Mancha.

Nódoa que não sai.