Lua Vagaluma
segunda-feira, 22 de agosto de 2011
O menino
(Para Jonatan)
Era uma vez o menino, na barriga da mãe
Era uma vez o menino, chutado pra fora da mãe
Chutado em casa e pra fora de casa
Era uma vez um menino, chutado na rua e sem mãe
Como não conhecia nem contos nem fadas
Os ratos costuraram-lhe apenas uns trapos
Esse menino costurado em trapos
Que homem será esse menino sujo e feito de trapos?
Nenhum sapato, nenhum cristal
Assim, ele nunca vai ao baile
Como pode ser feliz o final?
De dia, enrolado em raios emprestados de sol,
O menino se faz pedra, dormindo encolhido, um caracol sobre chão
No sonho o menino viaja, nos sonhos, já não está só
Mas não navega para longe, que seu barquinho é só papelão
A realidade o acorda, sacode com força
Esfrega a maldade em seus olhos feito pimenta
Puxando-lhe os cabelos, essa maldade oca
Arranca-lhe do sono com mão violenta
E na hora em que o mundo, sonolento,
Puxa sobre si a coberta escura da noite,
O menino deita-se em sua cama de concreto e cimento
Puxando sobre si um cobertor de frio e de medo
Quem tem medo do bicho papão?
O menino tem medo.
Tem medo desse bicho, esse bicho que é a fome.
A fome faminta, que acha o menino e o come
Bicho feroz, agarra o menino e o come
A fome o come
Autofagia
A fome o come
Autofagia
Seu corpo consome
Consome a criança
Some a criança
O menino não tem nome, nem infância, nem estrelas,
Não tem céu, nem sol, nem lua
Só deram ao menino um estômago e uma rua
Essa criança, coberta de terra, nunca recebeu uma flor
Essa criança, coberta de invisível, nunca viu o amor
O menino pedindo, a dona diz pra ir brincar
Brinca menino, brinca de imitar!Imita menino, imita!
Imita o mal que vê!
Imita o não, o murro, o chute,
Imita a raiva por sobre você!
A brincadeira do menino é brincadeira de carrinhos
Carrinhos sujos que precisam ficar bem limpinhos
Brincadeira de estátua com o vento
Brincadeira esquisita, o menino só fica parado
E frio passa por ele, revelando o menino-estátua
No chão, brincando duro, caído, gelado
E brincando ele brinca com o medo
De pique – esconde, ele brinca com medo
Do mal o menino se esconde,
Se esconde, menino, se esconde!
De morto-vivo ele brinca com a fome
Brincava de morto, vivo
Brincava de vivo, morto
Brincava de morto-vivo
Vivo
Morto
Vivo
Morto
Morto...
Morto.
quarta-feira, 10 de agosto de 2011
Contemplação
quarta-feira, 1 de setembro de 2010
Philos

Sinto-te adormecida, tão longe de mim!
Tudo quanto sonho é te encontrar.
Volto a buscar-te,
Mais uma vez.
Uma entre tantos,
Que desta terra, peregrinos como eu,
Seguem de colher e partilhar migalhas
Que no caminho deixaste para guiar-nos.
Sim, minha senhora, como devotados mendigos,
Escravos de ti que, no entanto, são senhores de si.
Ó amada dama,
Mesmo sem por estes caminhos sermos ainda
Capazes de te enxergar,
Por tão simplesmente te amar,
Aprendendo a de nosso tudo doar, sem nada carregar
Nada pelo caminho macular, nada pedir,
Nada almejar, nada, além da procura,
Nossa vida ganha cor e vida em tua busca!
Perdoa senhora, se por tantas vezes,
Abandono a trilha da Lei
Distraindo-me por entre os véus,
Oh, sim, enamorando-me de Maya,
Maya e suas danças,
Maya e os seus sete véus,
Envolve-me em deleites,
Acaricia-me os sentidos,
Alimenta-me as vaidades da mente,
Até que ceda, ignorante, cativa e passiva,
Às profundezas de seu dormir e sonhar.
Mas meu amor por ti sempre, senhora,
Em meio ao torpor, mais alto se eleva,
Abafa as canções envolventes
Com as quais Maya me seduz.
Sim, mesmo em meio ao prazer e à dor
Tua é a Voz que canta mais alto.
E a Vontade, mais uma vez, se faz soberana,
Incandescente espada ancestral,
Prossegue,
Imbatível e eterna,
A desfazer todos os véus,
A desatar todos os nós
Com os quais me tenho atado à Maya.
Com o fogo purificador do âmago divino,
Liberta-me das correntes
Em que presa julgava estar
Pois lembro-me de tua face desconhecida e
Amo-te cada vez mais, na falta que me fazes...
Que essa tua imagem queime em minha alma,
Senhora, como chama reminiscente
Guiando-me no retorno para casa,
Assim, diante dos sagrados ofícios a mim destinados,
Quando a carne vil, tremer, que o espírito, fiel, possa vencer!
Tendo há muito rompido a crisálida de carne e pele,
Tendo há muito me despido de todos os véus,
Almejo, ó dama, chegar a ti apenas com aquilo que Sou.
Ainda que pareças de mim intangível,
Pois sei que para merecê-la, enorme é a distância a percorrer
Entre aquilo que estou e o que devo Ser,
Ainda que te divise de mim tão distante,
O Ser, o buscador incansável,
Tua presença ardentemente reclama,
Não me deixa dormir, não me deixa sonhar.
Então, sonolenta, em meio à densa noite, à espessa neblina,
Desperto pra te buscar, busco-te pra te despertar.
Abro os olhos
E sei-te adormecida
Tão dentro de mim!
Tudo quanto quero, é te despertar!
Oh! Desperta Sophia, desperta!
Odisséia

Dia desses ganho os ares, tenho certeza disso.
Por enquanto prossigo,
Corro mais que caminho, forço meus músculos,
Entalho com o vento a minha pele, pra tatuar em mim tudo o que vejo,
Pra não esquecer nunca o que almejo...o que almejo...
Sou pura química, ação e reação, a digestão, a geração.
Mas é a eletricidade que me move, me leva a buscar, sorver emoções,
Descobrir novas sinapses, conexões,
Pontes que sempre estiveram ali e eu nunca vi.
Aprendendo que só tem respostas quem pergunta,
Dentro de abismos eu pulo sempre.
Não posso me desviar de seus encantos e mistérios.
E nessas quedas me ardo, me queimo,
Ser filha dessa chama é o que almejo.
Desafiando a física,
Meu objetivo é vencer a lógica,
Meu objetivo é que ela vença comigo.
E quando o abstrato me fere,
Crio canção, crio cura,
Prossigo,
E nada levo comigo.
Eu, filha da água, hoje caminho sobre a terra,
Através dessa chama vou ganhar os ares, tenho certeza disso.
domingo, 11 de abril de 2010
[entre]aberto [entre]cortado

Então era isso?
Que você guardava em segredo naquele único quarto escuro onde nunca me deixava entrar? E que um dia, na fresta que por descuido você deixou aberta eu pude enxergar. Te.
Não importa o quão rápido você tenha tentado fechar a porta. Não importa quantas histórias você invente pra confundir o que eu vi. Nem importa tão pouco que se faça ainda de menino, capaz de acreditar naquilo que você mesmo criou. Porque agora eu sei a diferença, entre você, e o seu reflexo.
sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010
Carambolas

Querem me ensinar a preferir outras frutas. As mais doces, mais vermelhas, mais vendidas, as preferidas do resto do mundo...Era só o que faltava! Eu não sou resto de mundo! Eu sou mundo inteiro. E o mundo inteiro sou eu. Simples assim. Um cabe no outro e o outro cabe no um. Todos os dias conto horas e horas de gente querendo me mudar. Mudar e emudecer! Porque o grito dos incomodados aflige quem reina nessa bagunça aqui! Mas...ora bolas! Eu gosto de carambolas! Gosto que cresçam no meu quintal, da terra que toca meus pés, ao invés de virem sabe-se-lá-de-onde em caixotes cheios de química pra fingir o sabor vencido. Gosto dessa constelação brotando e, entre o verde das folhas, amarelecendo. Do azedo docinho que puxa a bochecha pra dentro. Gosto do formato de estrela, da quebra da obviedade. Eu gosto mesmo é de revolução. Dessas que a natureza faz que quebram a cabeça da gente com cores desavergonhadas e formatos improváveis. Dessas que mudam o que existe, que tornam preto o que era branco e salgam o que era insoso sabe-se lá desde quando. Pois é essa revolução, é somente a revolução, que faz brotar em meio ao chão, toda uma constelação. E me dá de beber, as estrelas da terra, e também as do céu.
Bile
Você me faz
Sair da rota
Pra vomitar
versos assim
de qualquer jeito
na cara de quem passa
Sujo minha roupa, chão e mãos
Sujo fígado, âmago e coração
Sujo a razão.
Sempre sujo a razão.
Mancha.
Nódoa que não sai.

