
Então era isso?
Que você guardava em segredo naquele único quarto escuro onde nunca me deixava entrar? E que um dia, na fresta que por descuido você deixou aberta eu pude enxergar. Te.
Não importa o quão rápido você tenha tentado fechar a porta. Não importa quantas histórias você invente pra confundir o que eu vi. Nem importa tão pouco que se faça ainda de menino, capaz de acreditar naquilo que você mesmo criou. Porque agora eu sei a diferença, entre você, e o seu reflexo.
Foi quando essa semana eu de novo caí. Com o corpo dessa vez. E foi bom. Porque agora meus joelhos esfolados combinam com o sorriso que você me deu. E, vendo-os ali, uma carne viva emoldurada de poeira, mais um sangue teimoso que insistia em correr a beijar o chão, eu pude compreender, pela primeira vez, quão sério era o estrago de uma queda dentro, no coração. E foi bom. Porque quando surgir uma casquinha e ela começar a construir uma ponte de perdão sobre a ferida aberta, isso vai me fazer entender, que se meu corpo que é só carne, tem sozinho o poder de consertar a si próprio, então minha alma deve ter mais ainda a capacidade de curar um coração ferido. Auto limpar, auto curar. De criar também uma ponte de perdão sobre a ferida em chamas. Mesmo que a carne inflame. Mesmo que o coração doa. Mesmo que reste ao final, a cicatriz. Porque cicatrizes são as crônicas de batalhas da vida que se entalham em nossa pele. Então eu as carregarei como medalhas sobre mim. Medalhas de mais uma batalha em que fui machucada e derrotada, sim...mas sobrevivi. E vivi. Pude viver. E quando a casquinha cair, haverá se formado uma nova pele em mim, mais forte. E quando a casquinha cair, haverá se formado um novo coração em mim, mais forte. Por isso, mesmo que você me prefira no chão, eu tenho que ficar de pé e preencher novamente minha altura. Mesmo que os joelhos doam. Mesmo que o coração reclame. Mesmo que a alma inflame.
Em silêncio, tentando reaprender a andar.