sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

Carambolas


Querem me ensinar a preferir outras frutas. As mais doces, mais vermelhas, mais vendidas, as preferidas do resto do mundo...Era só o que faltava! Eu não sou resto de mundo! Eu sou mundo inteiro. E o mundo inteiro sou eu. Simples assim. Um cabe no outro e o outro cabe no um. Todos os dias conto horas e horas de gente querendo me mudar. Mudar e emudecer! Porque o grito dos incomodados aflige quem reina nessa bagunça aqui! Mas...ora bolas! Eu gosto de carambolas! Gosto que cresçam no meu quintal, da terra que toca meus pés, ao invés de virem sabe-se-lá-de-onde em caixotes cheios de química pra fingir o sabor vencido. Gosto dessa constelação brotando e, entre o verde das folhas, amarelecendo. Do azedo docinho que puxa a bochecha pra dentro. Gosto do formato de estrela, da quebra da obviedade. Eu gosto mesmo é de revolução. Dessas que a natureza faz que quebram a cabeça da gente com cores desavergonhadas e formatos improváveis. Dessas que mudam o que existe, que tornam preto o que era branco e salgam o que era insoso sabe-se lá desde quando. Pois é essa revolução, é somente a revolução, que faz brotar em meio ao chão, toda uma constelação. E me dá de beber, as estrelas da terra, e também as do céu.

Bile

Você me faz

Sair da rota

Pra vomitar

versos assim

de qualquer jeito

na cara de quem passa

Sujo minha roupa, chão e mãos

Sujo fígado, âmago e coração

Sujo a razão.

Sempre sujo a razão.

Mancha.

Nódoa que não sai.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Suspenso

E quando o peso das palavras é maior que a gente?
E quando os passos congelam equilibrando-se na linha bamba do tempo e o ar, é de repente tão sujo e denso, que arrebenta minhas veias por dentro?

É quando se para no primeiro tempo da intenção de um abraço, e meus braços, de suportar tuas palavras, já tão fracos, não te alcançarão jamais.

Sobre o luto

O luto, amor?
Por lágrimas já choradas,
por palavras já ditas,
por pedaços que nunca
estiveram inteiros?
O luto, amor?
O luto não.
Nascer.

Brincadeira


E eu não saberia dizer
se somos amigos que
passaram um tempo
brincando de namorados
ou se somos namorados
que passaram tempo demais
brincando que eram amigos.

1:42

Não ligue pro que eu falo.É sério.Já passa de uma da manhã e as palavras me escapam da boca sem que possa contê-las.Correm de mim como crianças mal criadas, derrubam coisas por onde passam, tropeçam em lembranças, explicações...melhor pararem ou vão acabar quebrando algo.São palavras temperadas.Com o gosto amargo do beijo que te neguei.Gosto que nunca saiu da minha boca. Já tentei de tudo, o tudo já me tentou e eu não cedo.Não tem jeito, aqui estou.Eu sempre volto.

Crepúsculo


É o sol se pondo...não é injusto?Não é triste que justo no momento em que vai nos deixar ele se torne mais belo?
Parece debochar de mim, quase o ouço rir, por saber que mesmo quando seu último raio sumir na linha escura de um horizonte sem luz, eu, tola, ainda vasculharei o céu em busca de um dia vazio que já passou.

Parece debochar de você. Sim, de você meu amigo, sabendo que ao meu lado, vendo-o morrer diante de nós, lentamente, você ainda quer segurar minha mão. Mas não o faz, a lógica não deixa.

Parece debochar de nós afinal...do dia que não vivemos. Um quadro de pinceladas arrojadas e cores espetaculares, cores que põe em minha boca o gosto do que poderia ter sido. O dia. Mas não foi. Termina.